sexta-feira, 10 de maio de 2013

Forlan arranjou o que fazer depois de sua aposentadoria na Inter de Milão, colunista da 4-4-2

FORLÁN (Colunista)
Nossa nova contratação nos leva através de suas reflexões para o Brasil – com muita escolta policial
Entre voos, eu liguei meu telefone. No Twitter, mensagem atrás de mensagem, centenas me diziam que estavam indo me encontrar no aeroporto. Alguns diziam estar dirigindo por seis horas saindo do Uruguai. Eu fiquei chocado. Alguns torcedores apareceram quando eu fui pro Manchester United, Villareal, Atlético de Madri e Inter de Milão, mas assim desse jeito era a primeira vez.
Era julho de 2012 e eu tinha ido embora da Inter de Milão para ir pro Inter de Porto Alegre. Eu tinha voado durante a madrugada para São Paulo, para fazer conexão entre aviões comerciais, embora eu tenha alugado um jatinho para levar minha família, que saía da minha cidade natal, Montevidéu, para me dar as boas-vindas na América do Sul. O responsável pelos passaportes em São Paulo me perguntou por que eu não tinha ido pro Corinthians. O colega dele retrucou “Não, por que não no São Paulo?” Acho que eles nem checaram meu passaporte direito.
Dois dias antes, meu humor estava completamente diferente. Sozinho no meu apartamento em Milão, eu sabia que estava indo embora. Queria dizer adeus para meus colegas, mas as pessoas não atendiam minhas ligações. Tentei falar com Ivan Córdoba mas um responsável do clube me falou umas bobagens sobre amanhã ser um dia difícil para eu ir me despedir. A mensagem era clara. Eu não era mais bem-vindo. Era uma pena. É um grande clube e eu tenho muitos amigos lá. Gostaria que meu momento na Inter tivesse sido diferente e não queria ter me lesionado tanto, mas não era escolha minha e mesmo quando eu estava bem fisicamente, fui pouco escalado. Jogadores de futebol querem jogar futebol.
As pessoas sabiam que eu não estava feliz. Torcedores de vários clubes pediam pra eu jogar no time deles. Na verdade alguns exigiam: os do Penharol, do Uruguai (que já disse ser torcedor e que meu pai jogou por lá também) e os do meu primeiro clube, Independiente na Argentina. Os fãs diziam que eu devia esse favor ao clube, por eles terem me dado este tempo e no Twitter e no Facebook eles exigiam que eu jogasse por eles de graça, como se eu devesse algo a eles e vice-versa. Eu pensei seriamente em voltar para o Independiente, mas e se o time não estivesse bem, ou se eu não conseguisse reproduzir o meu futebol? Eles ficariam contra mim, no direito deles. Não seria melhor deixar as boas memórias intocadas e não arriscá-las? E não seria uma escolha exclusivamente minha começar uma nova aventura ao invés de voltar para uma antiga? Eu não devia nada a ninguém. Dei o meu melhor em todos os clubes que joguei e fui pago pra isso. É assim que funciona. Eu tinha memórias especiais de todos os clubes, mas certamente a decisão era só minha.
Eu embarquei no voo pra Porto Alegre. Passageiros me desejavam sorte. Contavam-me que eram colorados, também. Outros diziam torcerem para o Grêmio, o rival do Inter, e me falavam, em tom de piada, pra eu não marcar gols contra eles. Após o voo de 90 minutos, eu liguei o telefone de novo. Estava mais frio do lado de fora: Inverno no sul do Brasil contra o verão europeu. Uma mensagem da minha família dizia que eles já estavam no aeroporto, mas estava impossível de acessá-lo (havia muitos torcedores esperando.) Os outros passageiros saíram do avião e eu apertei muitas mãos. Enquanto eles entravam em um ônibus, outro ônibus me levava pra uma parte diferente do aeroporto. Passei pelo Desembarque e as portas se abriram. Uau. As reportagens de Tv diziam haver 2000 pessoas lá. Primeiramente só conseguia avistar vermelho: mantas, bandeiras, até sinalizadores, que foram ligados dentro do aeroporto. Torcedores estavam cantando meu nome. Eu nunca me esquecerei deste momento. Alguém me passou um bumbo com meu nome e número nele. Eu bati no bumbo e o devolvi. Via alguns rastros de azul também (bandeiras do Uruguai).
A segurança conteve a massa. Músicas, cânticos, gritos, foi uma loucura, caótico, assustador mas também muito emocionante. Eu fui empurrado pra dentro de uma van com janelas escurecidas, mas os torcedores sabiam que eu estava lá dentro e começaram a balançar o carro. Por 20 minutos eu absorvi aquela paixão, mas também senti o peso das expectativas. Sob pesada escolta policial, eu fui levado para um hotel para uma entrevista coletiva. A sala estava cheia de câmeras. Eu estava cansado mas falei em português. Seria apresentado para a torcida mais tarde naquele dia antes de um jogo. Assim que a confusão parou, eu fui levado para outra sala e eu, de repente, me dei conta de que estava com muita fome. Vi minha família pela primeira vez: eles estavam rindo de mim, porque eu misturei um pouco de italiano no português. Após 10 anos na Europa, eu tinha voltado pra casa, iniciando um novo capítulo na minha vida como jogador.
Estou ansioso para escrever nesta coluna na FourFourTwo. Futebol ainda é a minha vida. Na verdade, eu não vou conseguir dormir direito esta noite porque o Inter tem um jogo pela Copa do Brasil que exige um voo de cinco horas, daqui até o Amazonas, perto do Peru. Cinco horas! Espero contar pra vocês sobre minha carreira agora e no passado e falar sobre episódios específicos. O Brasil é um lugar interessante de se estar agora e posso olhar pra trás e ver um esporte que foi bom pra mim, por poder jogar junto a Suarez, Aguero, Van Nistelrooy, Riquelme e agora Leandro Damião, com treinadores como Ferguson, Pellegrini, Oscar Tabarez e meu chefe atual, Dunga.
Até mês que vem – Diego

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